Segredos Adventistas Haitianos

Conheça Mimi Fleurantin, uma jovem negra alta, esbelta e curvilínea, de ascendência haitiana, que vive na cidade de Ottawa, Ontário. Mimi é a personificação da mulher cristã moderna, criada na fé adventista do sétimo dia. Ela se dedica constantemente ao trabalho voluntário em sua igreja e em diversas outras boas causas, além de ser uma funcionária exemplar em um certo órgão do governo canadense. Formada pela Universidade de Ottawa, Mimi também aspira a ser cantora nas horas vagas. Existe algo que essa moça não consiga fazer?

Para os membros da Associação Adventista Haitiana de Ottawa, Mimi é a rainha. Stephenson Vaillant é um haitiano alto e forte que frequenta a igreja ocasionalmente, mas é um tanto enigmático. O rapaz é bissexual e bastante discreto quanto a isso. Há muitos homens bissexuais na igreja haitiana, e a maioria deles se envolve com outros homens da igreja. Todos esses homens têm esposas e namoradas que não suspeitam de nada. Stephenson é diferente. Ele não se envolve com pessoas da igreja.

Stephenson lembrou-se de ter conhecido um homem chamado Pierre, que era um dos líderes do estudo bíblico na igreja no centro de Ottawa. O nerd de óculos, Pierre, deu em cima de Stephenson quando este foi à igreja numa manhã de sábado. Pierre tinha uma esposa, uma senhora que também estava presente, mas isso não o impediu de lançar a Stephenson o “Olhar Gay Intenso”. Para quem não sabe, o “Olhar Gay Intenso” é aquele contato visual intenso e super assustador que homens que não são heterossexuais lançam a outros homens, tanto para indicar sua identidade quanto para declarar interesse sexual na pessoa que estão encarando. Stephenson, sabiamente, se afastou de Pierre. Que cara esquisito.

A vida de um homem negro bissexual raramente é fácil, e a existência de Stephenson é ainda mais complicada pelo fato de ele ser um homem honesto. Uma das primeiras pessoas para quem Stephenson se assumiu foi Junie, uma jovem com quem namorou quando era recém-chegado a Ottawa. Junie e Stephenson namoraram por anos e depois se separaram, mas a relação entre eles permanece amigável mesmo depois do término. No fim das contas, Stephenson é um cavalheiro à moda antiga. O mundo detesta homens como ele. Canalhas se dão melhor do que homens bons neste mundo insano. É a vida, pessoal.

Stephenson gosta de BDSM e já participou de festas com aficionados por BDSM na região de Ottawa. Foi em um desses eventos que Stephenson conheceu a adorável Tina Chan, uma dominatrix canadense de ascendência asiática, curvilínea e na casa dos quarenta. Quando Tina não está aplicando palmadas e penetrando homens travessos em masmorras por toda Ottawa, ela é uma funcionária pública educada e discreta. Quando Stephenson e Tina se conheceram, faíscas voaram entre eles. Logo surgiu uma amizade carregada de erotismo. Stephenson às vezes vai à masmorra de Tina para receber palmadas e penetração. O fato de Stephenson ser bissexual não incomoda Tina. Os dois sempre se entenderam.

Dizem que homens e mulheres modernos levam vidas compartimentadas e, no caso de Stephenson, isso é definitivamente verdade. Formado pela Universidade Carleton, Stephenson trabalha no Banco Toronto Dominion como agente de atendimento ao cliente. Não é um emprego ruim, se você conseguir. Stephenson tentou trabalhar para o governo canadense, mas não se adaptou. Havia muitos sociopatas e psicopatas nesse ambiente. Uma pessoa empática como Stephenson jamais teria uma chance em um ninho de víboras como aquele. Stephenson trabalha, cuida de seu cachorrinho Harrigan e frequenta a igreja no mesmo fim de semana em que se encontra com Tina para sessões de femdom. O homem sabe quem é e do que gosta, não é?

Por que Stephenson continua frequentando a igreja da Associação Adventista Haitiana de Ottawa? Ele foi criado em um lar cristão e isso faz parte de sua personalidade e cultura. Stephenson costumava frequentar a igreja durante seus anos de universidade. Ele sente falta de seus antigos amigos, como Claude Faustin, Esther Phanuel e Louis Franciscan. Parece que muitas das pessoas mais importantes da igreja misteriosamente pararam de frequentá-la ou se mudaram. Há um novo pastor, com uma esposa bastante sedutora. Stephenson vai à igreja por questões de fé, mas o lugar definitivamente mudou. Que mundo, hein?

Stephenson conhece Mimi Fleurantin há mais de uma década e nunca lhe deu muita atenção… até o início deste ano. Há algo diferente em Mimi. Stephenson, que parou de frequentar a igreja por volta do início da pandemia de Covid, voltou este ano e encontrou o lugar mudado. Seu grande amigo Louis também retornou. Mimi, porém, está diferente. A brilhante e talentosa jovem haitiano-canadense agora é uma das figuras mais importantes da igreja. Mimi canta, ensina estudos bíblicos e também cuida das finanças da igreja. Pastores e suas esposas vêm e vão, mas Mimi permanece. Há algo em Mimi. Este ano, Stephenson se sente atraído por ela. O que será?

“Que bom te ver de novo”, disse Stephenson a Mimi ao cumprimentá-la na igreja. Naquele dia fatídico, Mimi usava um vestido preto e branco com estampa floral. Seus óculos redondos repousavam na ponte de seu nariz levemente pontudo. Mimi tinha um ar fofo, meio nerd. Ao ver Steve, Mimi sorriu e estendeu a mão, que ele apertou. Stephenson sorriu agradavelmente. Ele não conseguia acreditar o quanto Mimi havia mudado. Ela era uma MULHER completa agora.

“Bem-vindo de volta, Steve, onde você esteve?”, respondeu Mimi, e Stephenson inventou uma história sobre ter se mudado. Na verdade, Stephenson morou em vários lugares em Ottawa na maior parte do tempo. Ele morou na região de Overbrook, em Vanier, e na região de Barrhaven, em Nepean, além da região de Orleans, na zona leste de Ottawa. Tirando algumas viagens ocasionais a Montreal ou Toronto, ou talvez Cornwall, Stephenson estava bem estabelecido em Ottawa. O irmão tinha uma relação complicada com a igreja, mas sentia falta do lugar e das pessoas. A vida pode ser engraçada assim.

“Como nos velhos tempos”, disse Louis para Stephenson enquanto os dois estavam sentados juntos na sacada da igreja. Dezenas de homens e mulheres estavam espalhados por todo o lugar. Lá embaixo, no púlpito, Mimi cantava em francês e depois dava as boas-vindas aos fiéis. Olhando para Mimi, Stephenson balançou a cabeça. Quando conheceu Mimi, uma década atrás, ele namorava Junie e achava Mimi uma moça de igreja sem graça, uma pessoa legal, mas não era para ele. Hoje em dia, porém, Stephenson se sentia atraído por Mimi e não conseguia explicar o porquê. Estranho, não é?

“Sinto falta dos nossos velhos amigos, como Claude e Esther, mas sim, é bom estar de volta”, respondeu Stephenson, e Louis assentiu. Alto, bem-apessoado e de pele escura, Louis estava elegante em um terno cinza-escuro e óculos escuros. Ele e Stephenson eram amigos há uma década. Aliás, foi Louis quem convidou Stephenson para ir à igreja depois de conhecê-lo na Estação Hurdman, em Ottawa, dez anos atrás. Como o tempo voa, não é mesmo?

Assistindo à cerimônia, Stephenson refletiu sobre todas as reviravoltas que sua vida teve na última década. Quando chegou a Ottawa vindo de Cap-Haïtien, no Haiti, ele era um solicitante de refúgio. Desde então, tornou-se residente permanente, formou-se na Universidade Carleton, trabalhou em diversas áreas da tecnologia e no governo antes de se tornar funcionário de um banco. Ao longo desse caminho, Stephenson percebeu que era bissexual, embora conservador demais e reservado demais para o mundo descontrolado e sexualmente descontrolado dos homens gays e bissexuais. A maioria dos relacionamentos de Stephenson foi com mulheres. Há uma razão para isso.

Além das sessões de femdom com Tina em sua masmorra no centro de Ottawa, Stephenson basicamente vive como um eremita. Ele ignora tanto mulheres quanto homens gays quando eles o assediam. O profissional haitiano-canadense, culto e discretamente bem-sucedido, não gosta de caos ou drama. O que Stephenson mais deseja é ter sua própria família. Olhando ao redor da igreja, Stephenson reconheceu alguns rostos familiares. Jovens mulheres que ele conhecera na época da universidade, como Sophia e Mia, estavam casadas e tinham filhos. Havia também aquele cara, Allain, que costumava sair com Stephenson e Louis. Hoje em dia, Allain é casado e tem um filho. Stephenson ficou feliz por eles, mas também sentiu inveja. Vai entender.

“Bienvenue et bon Sabbath, Welcome and Happy Sabbath,” disse Mimi com aquele sorriso radiante antes de deixar o púlpito. Stephenson sorriu para Mimi enquanto ela retomava seu lugar na primeira fila da igreja. Ao lado dele, Louis mandava uma mensagem para alguém no celular. Stephenson olhou ao redor da igreja, vendo seus compatriotas haitianos com suas famílias. Ele se pegou encarando Mimi mais uma vez. Sério, o que será que ela tem? Ele precisava descobrir o que estava acontecendo, de verdade.

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