“Porra”, pensou Stanley Rameau, olhando para a extensa paisagem urbana que antes era conhecida como Montreal, Quebec. Com um metro e oitenta e oito de altura, corpulento e de pele escura, com dreadlocks estilosos e uma barba bem aparada, Stanley ainda tinha a aparência do hipster haitiano que fora décadas atrás. O estado vampírico congela a idade física, uma de suas poucas vantagens. Mais cedo naquela noite, Stanley se alimentara de vários ratos, drenando seu sangue. Após décadas de inatividade, Stanley ainda se sentia lento, mas estava melhorando a cada hora. Vampiros são, acima de tudo, resilientes.
Stanley passou a língua sobre as presas antes de retraí-las. Estava morrendo de sede. Para onde quer que olhasse, o vampiro via corpos, mas não havia uma gota para beber. Ainda vestindo o macacão prateado que usara na câmara de hibernação conhecida como o Poço, Stanley parecia desconfortável em seu novo ambiente. Mesmo para um vampiro, o apocalipse não era brincadeira. Adaptar-se ou morrer, desta vez para sempre, essas eram as opções.
“É, é assim em todo lugar”, disse Noor Hamideh, balançando a cabeça. Baixinha, curvilínea, de pele bronzeada e cabelos escuros, Noor ainda falava com um leve traço de seu sotaque marroquino. Décadas depois de ser transformada aos trinta e poucos anos, Noor continuava sendo praticamente a mesma pessoa de antes. Quando alguém se torna vampiro, tanto suas qualidades quanto suas fraquezas são amplificadas. O estado vampírico torna a pessoa mais parecida com o que ela era. Força e inteligência se intensificam, assim como as inseguranças. Essas são as regras do estado vampírico.
Por alguns dias, Noor vinha vagando pelos restos de Montreal com seu novo amigo Stanley. A vampira marroquina olhou para seu camarada haitiano, e o desespero emanava dele em ondas. Noor arriscou um olhar para baixo e reprimiu um arrepio. Havia zumbis por toda parte. Milhões deles. Montreal e seus arredores haviam se transformado em uma necrópole. O mundo não pertencia mais a humanos ou vampiros. Os zumbis o dominavam.
“A humanidade perdeu. Eles tinham armas, tanques, aviões de guerra, Wi-Fi, satélites e ogivas nucleares, e mesmo assim perderam para os malditos zumbis”, disse Stanley, furioso. Noor assentiu e o abraçou delicadamente. Assim como ela, ele não respirava. A tensão, porém, emanava do corpo de Stanley. Três noites atrás, Noor o tirou do Poço, o covil onde muitos vampiros se esconderam décadas atrás. Três décadas atrás, o apocalipse zumbi começou. Noor assistiu a tudo. Stanley e seus semelhantes se esconderam do ataque. Eles não eram mais os mesmos.
“A humanidade lutou bravamente”, retrucou Noor, reprimindo a vontade de mandar Stanley se danar. Pelo menos os humanos lutaram. Décadas atrás, alguns vampiros de elite optaram por não participar do fim do mundo e se esconderam em bunkers de alta tecnologia no Poço. Quando a energia acabou, os vampiros ficaram presos lá dentro. Noor descobriu Stanley por puro acaso. Ela estava caçando ratos no complexo subterrâneo quando se deparou com os sarcófagos onde os vampiros de elite dormiam. Pura sorte, como se viu.
“Deve ter sido um caos quando tudo aconteceu”, disse Stanley pensativo, e Noor revirou os olhos. As ruas lá embaixo estavam lotadas de zumbis. Há décadas, todas as grandes cidades se pareciam com Montreal. Havia mais zumbis do que pessoas hoje em dia. Caramba, fazia três anos que Noor não via nenhum humano. A vampira tinha perambulado de Quebec ao Maine, do Maine a Massachusetts e até se aventurado até o México. Os redutos humanos haviam caído, um após o outro. Os zumbis estavam vencendo. O que restava para os vampiros?
“Alguns de nós lutaram contra os zumbis, sabíamos que eles representavam uma ameaça à nossa sobrevivência, pois se os humanos desaparecerem, nós também desapareceremos”, retrucou Noor. Stanley assentiu como se entendesse. Para ele, aquilo era um pesadelo que se tornara realidade. Os vampiros sempre viveram secretamente entre os humanos, mudando-se de um lugar para outro, sob nomes e identidades falsas. Para eles, a espécie humana parecia eterna. Os vampiros precisavam dos humanos como fonte de alimento e também para repor suas fileiras. Para um vampiro, a extinção da humanidade era impensável… até agora.
“Quem me dera estar lá”, disse Stanley, e Noor se irritou com isso. O vampiro nascido no Marrocos relembrou os horrores do apocalipse zumbi e como ele devastou tanto o mundo humano quanto as comunidades vampíricas. Os zumbis massacravam e devoravam qualquer ser vivo que encontrassem. Para eles, um coelho, um cavalo, um humano ou um zumbi eram todos alvos em potencial. Os zumbis, lentos, obtusos e perpetuamente famintos, não mostravam misericórdia a quem encontravam. Nada vivo estava a salvo deles. Vampiros, meio mortos e meio vivos, também eram presas dos zumbis. Não é incrível?
Noor soltou Stanley e ficou na beirada, encarando as hordas de zumbis irracionais lá embaixo. Por décadas, as principais cidades do Canadá estavam assim. Montreal, Ottawa, Toronto, Winnipeg, Halifax, Vancouver, nenhuma escapou do ataque implacável dos zumbis. A América do Norte sucumbiu às hordas de zumbis apenas um ano e meio após o primeiro surto, que começou em 2029. Nem mesmo todo o poderio militar combinado dos Estados Unidos, Canadá e México conseguiu salvá-los dos zumbis. Soldados humanos eram treinados para lutar contra outras pessoas, não contra mortos-vivos.
“Alguns diriam que você e os outros são covardes por se esconderem no Poço, mas eu conheço centenas de vampiros que saíram para lutar contra os zumbis e não voltaram”, disse Noor, dando de ombros. Stanley a encarou, maravilhado com aquela fachada de dureza. Noor estava atormentada pelo que tinha visto e feito. Não era preciso ser especialista em psicologia para perceber isso. Os zumbis estavam por toda parte, e os humanos estavam diminuindo. O que restava para os vampiros?
“Lutamos para sobreviver”, disse Stanley com firmeza, e gentilmente pegou a mão de Noor na sua. Noor olhou para ele e conteve uma resposta rígida. Stanley era certamente convencido, e tinha aquela ingenuidade que alguém que não havia vivenciado horrores podia se dar ao luxo de ter. Noor já tinha visto muita coisa. Mesmo assim, sentia-se bastante sozinha. Os outros vampiros no Poço haviam perecido quando seus compartimentos de hibernação apresentaram defeito, mas Stanley, de alguma forma, sobreviveu. Isso devia significar alguma coisa.
“Sobreviver sozinha não vale a pena, preciso de mais”, disse Noor com urgência. Stanley olhou para ela, sorriu e a beijou. Noor ficou surpresa com o beijo, mas não resistiu. Interrompendo o beijo, Noor mostrou suas presas para Stanley, que fez o mesmo. Sob o pálido luar, os dois vampiros se encararam. Companheiros em potencial, rivais e inimigos, eles eram tudo isso e muito mais. Talvez fossem também os últimos de sua espécie…
“Quero fazer mais do que sobreviver, quero encontrar outros como nós e reconquistar o mundo”, disse Stanley, com um tom sombrio. Noor olhou para ele e percebeu que ele falava sério. Dando de ombros, Noor assentiu. Stanley pisou na beirada e saltou para a noite. O vampiro haitiano cruzou facilmente um vão de cento e vinte metros e aterrissou no telhado do prédio seguinte. Noor piscou, surpresa, impressionada com a agilidade estonteante de Stanley. Mesmo para os padrões de um vampiro, Stanley era impressionante.
“Exibida”, disse Noor, rindo, enquanto tentava imitar os mesmos passos. Saltando para a noite, Noor voou e aterrissou na beirada do prédio seguinte. A vampira, normalmente tão ágil, ofegou quando seus pés escorregaram e ela cambaleou para trás. Em direção ao abismo. Em direção à rua. Lá embaixo, centenas de milhares de zumbis gemiam na noite. Os monstros vorazes estavam sempre famintos. Humanos, vampiros, animais, os zumbis devoravam tudo…
“Te peguei”, disse Stanley, agarrando Noor e puxando-a para si. Noor suspirou aliviada e expirou, embora não respirasse. Os dois vampiros se abraçaram por um longo momento. Desta vez, Noor beijou Stanley. Parecia a coisa certa a fazer. Stanley retribuiu o beijo e, em seguida, riram sem jeito. Lado a lado, começaram a caçar. Na ausência de humanos, havia muitos bichos por perto: cães vadios, gatos vadios e muitos pássaros. Os vampiros encontraram presas e se alimentaram. Quando amanheceu, esconderam-se da luz do sol.
Noor e Stanley dormiam no porão de um sótão barricado, onde uma família de humanos resistiu por anos até que o desespero os dominou. O pai, a mãe, o filho e a filha ainda estavam lá, seus esqueletos sorrindo para os visitantes mortos-vivos. Os humanos escolheram cometer suicídio quando a situação se tornou insustentável. Enquanto Stanley dormia ao lado dela, Noor pensou na família morta e em como devem ter sido seus últimos momentos. A vampira esperava que ela e seu novo companheiro tivessem mais sorte. Com um encolher de ombros, Noor adormeceu. Esta noite, ela e Stanley vagariam, caçariam e possivelmente lutariam contra os zumbis. Assim é a existência dos últimos vampiros durante o apocalipse zumbi…